31.3.06

relâmpagos azuis

os relâmpagos azuis caíam sempre na página ao lado.

30.3.06

agora

«agora», disse ela muito baixinho, depois de o ver ao longe, a dobrar uma esquina.

29.3.06

greguería (3)

a tosse é a voz da doença a dizer que chegou.

28.3.06

dança

começamos sempre a medo, antes da vertigem.

27.3.06

prancha

aos 17 anos, ficou imóvel.
lá em baixo, os reflexos na água demasiado azul da piscina, os amigos estendidos na relva, a rapariga a quem não se declarou nunca, o salto adiado, a cobardia agarrando-se definitivamente aos ossos.

26.3.06

labirinto marialva

quando teseu deu de caras com o minotauro, ali para os lados da golegã, espetou-lhe um par de bandarilhas.

25.3.06

ordem

confessava-se ao padre, aos amigos do messenger e ao empregado da cervejaria, não necessariamente por esta ordem.

24.3.06

greguería (2)

os aviões batem as asas quando nós não estamos a olhar.

23.3.06

manhã

ao acordar, b. teve um pressentimento: «hoje vou morrer». só depois, muito depois, lhe explicaram que nem sequer tinha acordado.

22.3.06

pálpebras

não eram bem pálpebras. eram borboletas.

21.3.06

primavera

sobre os versos, o pólen.
neve amarela.

20.3.06

o punhal

esfaqueou um livro de borges, com método, a ver se sangrava.

19.3.06

são josé

às voltas no centro comercial, jesus interroga-se sobre o que há-de oferecer ao pai este ano.

18.3.06

recibo verde

nele tudo era reciclável: até o vencimento (incerto e com retenção na fonte).

17.3.06

conto zen

o mestre olhou em volta e viu os discípulos de caneta em punho (os moleskines abertos numa página em branco). espalhados pela relva, perto uns dos outros, os corpos daqueles homens tão crédulos desenhavam um ideograma obsceno.

16.3.06

greguería (1)

os néons são as tatuagens da noite urbana.

15.3.06

dealer

entrava mudo e saía calado. não dizia nada. nunca. a sua mercadoria era o silêncio.

dívidas

se a empresa cobrador do fraque um dia tiver dívidas, a quem é que telefonam os credores?

no mundo há dois tipos de pessoas

no mundo há dois tipos de pessoas: as que recorrem a frases que começam por "no mundo há dois tipos de pessoas" e as que não recorrem a frases que começam por "no mundo há dois tipos de pessoas".

aviso

o letra minúscula tinha uma ordem secreta, um conjunto de regras precisas (mesmo se invisíveis) para a distribuição diária dos brevíssimos textos e das oblíquas imagens.
agora já não tem.
as frases e as fotos obedecerão doravante apenas às contingências do acaso.

hibernação

depois do longo inverno, com a temperatura a subir e a primavera já aí, este blogue renasce.