30.11.05

dona-de-casa

limpava o pó a tudo; até à solidão.

os prostitutos

juntaram-se meia dúzia e formaram uma empresa: a express male.

pedra

caminho

no meio do caminho, havia uma pedra.
«uma pedra», disseram todos.
«um poema», disse o poeta.

manguito

deprimido com a crise económica e com a baixa auto-estima nacional, o zé povinho já nem sequer tem forças para fazer um manguito.

um poema inédito de joaquim cardoso dias [enviado por e-mail]

esta tarde


esta tarde
esmagado pela luz do mundo
contemplei a cidade
da varanda na alegria dos outros

e nenhum sorriso
foi preciso aos primeiros detalhes fortuitos
desta paisagem entre prédios e fotografias

e de muito longe o interior da floresta
é o rito de iniciação sexual
entre o medo e a raiva de não te ter amado

um auto-retrato com luzes estranhas no rosto de jorge molder



sem título (2001)

uma frase de ernesto sampaio

«sem as palavras não existiria nada; só elas dão sentido completo à essência das coisas.»

(in ideias lebres, fenda)

um landay recolhido por sayd bahodine majrouh

«ó meu amor, se nos meus braços tremes tanto
que farás quando do choque das espadas saltarem mil faíscas?»

(in a voz secreta das mulheres afegãs - o suicídio e o canto, trad. ana hatherly, cavalo de ferro)

um fotograma de cindy sherman



untitled film still #66 (1980)

uma micro-história de tonino guerra

«abandonadas pelos seus amantes, duas mulheres almoçam sandes, num banco de jardim público. a solidão era tão forte que pensam viver juntas. a que primeiro oferecera a sua casa, ao preparar-se para dormir, sentiu a outra tão atraente que desejou fazê-la adormecer no lado do leito que, habitualmente, ocupava, tomando para si o lado do homem que amava. e ao perceber que olhava para a sua amiga como ele a teria olhado, sofreu com os ciúmes.»

(in histórias para uma noite de calmaria, trad. mário rui de oliveira, assírio & alvim)

25.11.05

fim

ele abriu a porta da rua, olhou para trás e apagou a luz.

ruínas

nas ruínas podemos ver o que foi.
ou então a passagem para o que vai ser.

passagem

mais uma semana (de interregno)

às vezes é preciso tempo para carpir as mágoas.

how to kill a blog

não pensar demasiado.
não temer as consequências.
não hesitar no último momento.
partir para outra(s).

17.11.05

champollion forense

os seus hieróglifos: as marcas dos pneus, deixadas na terra húmida pelos assassinos.

a vingança do meteorologista

quando os furacões atingiam o grau cinco, baptizava-os com os nomes das suas ex-mulheres.

marcas

a morte descalça

inexplicavelmente, confundia tanatos com chanatos.

eratóstenes

gloriosa sabedoria: entender que o tamanho do mundo se mede pelo tamanho das suas sombras.

16.11.05

business as unusual

inspirado pelo êxito dos jornais gratuitos, resolveu criar um blogue pago.

segredo

atrás do vidro fosco, literatura nítida.

vidro fosco

a realidade de pernas para o ar (2)

«uma casa; 58 câmaras; três livros de filosofia ocidental (kierkegaard, wittgenstein e derrida); 12 professores universitários assistentes. só um deles conseguirá terminar a tese de doutoramento. saiba qual em exegese, o novo reality show da tvi.»

engano

comprou um livro de auto-ajuda mas, ao fim de poucas páginas, sentiu-se defraudado: ali não havia diagramas de motores nem dicas para resolver problemas de mecânica.

15.11.05

dicionário alternativo

prémio nobel - o equivalente literário da killing joke.

discurso directo

dita assim, a palavra falésia era um precipício.

falésia

sinais de fumo

em cantos opostos do escritório — enorme e desumano open space — eles partilhavam uma linguagem secreta, uma espécie de código morse que pairava sobre as cabeças dos outros, deixando na roupa um cheiro vagamente erótico (mistura de ansiedade e nicotina).

personal

quando decidiu que já ia sendo tempo de escrever um livro (como toda a gente à sua volta), a modelo famosa trocou o personal trainer pelo personal writer.

14.11.05

pé direito

era tão íntegro que mandou retirar os tectos falsos do seu novo gabinete.

a realidade de pernas para o ar (1)

foi então que o taxista se virou para mim, de olhos esbugalhados e dedo em riste: «é como lhe digo, meu amigo, do que este país precisava mesmo era de um karl marx».

fuga

delas

a «fuga das galinhas» inverteu-se: agora já não são elas que fogem de nós; somos nós que fugimos delas.

cama

ela dormia sempre no lado direito da cama.
ou seja: ele dormia sempre no lado esquerdo da cama.
ela tinha sonhos agradáveis. ele, pesadelos.
até que um dia decidiram trocar.
agora ela dorme sempre no lado esquerdo da cama.
ou seja: ele dorme sempre no lado direito da cama.
e quando acordam, de manhã, não se lembram de nada.

13.11.05

quatro versos de luís quintais

«nos teus lábios a noite
descreve um arco.
é o ciclo da melancolia
que se fecha.»

(in lamento, cotovia)

um tubarão pós-moderno de damien hirst



the physical impossibility of death in the mind of someone living (1991)

uma provocação de pierre louÿs

«não vos masturbeis no confessionário, com vista a serdes absolvida logo a seguir.»

(in manual de civilidade para meninas, trad. júlio henriques, fenda)

12.11.05

dois versos de paulo teixeira

«a beleza é uma arma que fere e cega,
mas que estaremos sempre dispostos a perdoar.»

(in orbe, caminho)

uma gravura de max beckmann



die serenade des mephistopheles (1911)

um aforismo de bernardo soares

«o mundo exterior existe como um actor num palco: está lá mas é outra coisa.»

(in aforismos e afins, fernando pessoa, ed. richard zenith, assírio & alvim)

11.11.05

mnemósina

— sabes qual é o nome da deusa grega da memória?
— saber até sei, mas agora não me lembro.

manual abreviado do olissipógrafo

escolhe uma esquina e abre os olhos.

esquina

ali

acreditava de tal maneira na reencarnação que a sua nota de suicídio resumiu-se a uma frase: «vou ali e já volto».

passing shot

um tenista brasileiro, famoso pelo seu passing shot letal, morreu enquanto corria junto ao mar, em ipanema, «vitimado por uma bala perdida».

10.11.05

passado

todos temos um passado que nos compromete. até satanás, o anjo trânsfuga.

desorientações

há quem confunda a direita com a esquerda e quem troque o alto pelo baixo, como se fosse tudo igual.
não é.

cima

dicionário alternativo

tabu - único contributo ideológico do prof. aníbal cavaco silva; pretexto para silêncios demasiado longos, encenações pacóvias e regressos sebastiânicos.

gerschom scholem sobre walter benjamin

«eram as coisas pequenas as que mais o atraíam.»

9.11.05

o homem das parábolas

artilheiro em tempo de guerra. poeta em tempo de paz.

ironia é isto

à porta de um wc ocupado, encontrar o sr. marcel duchamp, aflito para urinar.

aquática

a mais curta tragédia do mundo

era uma vez um rapaz que perguntou a uma rapariga:
— queres casar comigo?
ela estava de costas e nem sequer lhe respondeu.
ele cortou os pulsos logo a seguir, ignorando que a amada ingrata não o escutara porque é surda. fim.

[para juntar a esta, esta, esta, esta, esta, esta, esta e esta.]

humidade em lá menor

como handel, aquele compositor escreveu música aquática — até ao dia em que o vizinho de baixo se queixou das infiltrações.

8.11.05

shuffle

desafio pós-moderno: ler poesia em modo shuffle.

fragmento antigo (revisto e corrigido)

a américa, para v., era o equívoco. colombo procurava a índia e descobriu a américa. «sei bem o que isso é», dizia v., que ao longo da vida também procurou umas coisas e encontrou outras.

gingko biloba

chão

no chão, pisados, a folha amarela de gingko biloba e o outono.

teatro

naquela noite, o pano de cena não desceu. os espectadores continuaram nos lugares, os actores no palco, os técnicos onde é suposto estarem. da porta de saída, o encenador gritou qualquer coisa que ninguém entendeu. seguiram-se murmúrios, hesitações, tosses, um crescendo de vozes perplexas. cinco minutos mais tarde, cada um foi à sua vida e o encenador repetiu para a sala vazia: «podem ir embora, podem ir embora, a peça já começou».

7.11.05

como arruinar ilusões insensatas em duzentas e tal páginas

ele achava que talvez pudesse ser romancista, mas depois leu w. g. sebald.

paris (2)

no meio da confusão, incendiou o carro do único vizinho que lhe dava boleia para fora do bairro, todas as manhãs.

parque infantil

1978

no parque infantil ficaram a pairar as nossas gargalhadas.

paris

o que não eram capazes de dizer por palavras, diziam com o fogo; a mais assustadora das linguagens.

[chamem-lhe um lapso, um hiato, um salto quântico. após uma ausência de três semanas, este blogue volta ao ritmo habitual.]