9.10.05

um retrato físico de personagem masculina, por hélia correia

«para bem de todos, nunca edgar lebrão mostrou interesse em visitar a casa. quando se deslocava à capital — o que era raro e envolvia enigmas de amores ou de dinheiros que ninguém decifrou —, ficava por hotéis de fim de século onde rangiam tábuas enceradas e os baixos-relevos estucados nas paredes se iam sombreando de poeira. regressava depois à quinta, emagrecido, com rugas muito nítidas, os olhos afundados numa vermelhidão de álcool e estúrdia. embora baixo e magro, era belíssimo — dessa beleza de ouro, alucinada, que mais excita a alma que os sentidos e apavora as mulheres como a visão de um anjo.»

(in villa celeste, contraponto)