2.10.05

um parágrafo de samuel beckett

«uma praia. o entardecer. luz a morrer. em breve nenhuma para morrer. não. nada disso quando nenhuma luz. morrendo até à madrugada e nunca morrida. estás de costas para o mar. único som o dele. tão mais vago quanto mais vazando lentamente. até lentamente tornar a encher. estás apoiado num longo bastão. as tuas mãos descansam no punho e nelas a tua cabeça. se os teus olhos viessem a abrir-se veriam primeiro ao longe aos últimos raios as abas do teu casacão e os canos das tuas botas enterradas na areia. de seguida e só ela até desaparecer a sombra do bastão na areia. desaparecer da tua vista. noite sem lua e sem estrelas. se os teus olhos viessem a abrir-se o escuro acenderia.»

(in companhia, trad. de miguel castro caldas, ambar)