15.10.05

um excerto de w. g. sebald

«devia haver, disse ele ainda, quem elaborasse um catálogo das nossas construções, a contar das maiores para as mais pequenas: tornar-se-ia logo evidente que a arquitectura habitacional abaixo do tamanho normal, isto é, as cabanas rurais, os eremitérios, as casinhas dos guarda-rios, os mirantes, as casinhas de brincar no jardim, é aquela que exprime um vislumbre de paz, ao passo que ninguém no seu perfeito juízo dirá que um edifício grande como, por exemplo, o palácio da justiça de bruxelas, no velho monte da forca, lhe agrada. quando muito, fica-se espantado, e esse espanto é já de si uma forma antecipada do horror, pois de algum modo sabemos naturalmente que os edifícios ultradimensionados lançam já a sombra da sua destruição, concebidos que são desde a origem com vista a uma existência futura enquanto ruínas.»

(in austerlitz, trad. telma costa, teorema)