16.10.05

três versos de pedro tamen

«do lume sabes só que é porta
e tens de te queimar para saber
se abre ou fecha.»

(in retábulo das matérias, gótica)

um espelho de francesca woodman



self-deceit #1 (1978)

uma descoberta inevitável de jorge luis borges

«descobrimos (a altas horas da noite esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. então bioy casares recordou que um dos heresiarcas de uqbar havia declarado que os espelhos e a cópula eram abomináveis, porque multiplicam o número dos homens.»

(in ficções, trad. josé colaço barreiros, teorema)

15.10.05

dois versos do heterónimo álvaro de campos

«o verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
é o comboio real e não os versos que o cantam»

(in poesia, edição de teresa rita lopes, assírio & alvim)

uma arquitectura habitacional de charles-edouard jeanneret (le corbusier)



villa savoye (1927)

um excerto de w. g. sebald

«devia haver, disse ele ainda, quem elaborasse um catálogo das nossas construções, a contar das maiores para as mais pequenas: tornar-se-ia logo evidente que a arquitectura habitacional abaixo do tamanho normal, isto é, as cabanas rurais, os eremitérios, as casinhas dos guarda-rios, os mirantes, as casinhas de brincar no jardim, é aquela que exprime um vislumbre de paz, ao passo que ninguém no seu perfeito juízo dirá que um edifício grande como, por exemplo, o palácio da justiça de bruxelas, no velho monte da forca, lhe agrada. quando muito, fica-se espantado, e esse espanto é já de si uma forma antecipada do horror, pois de algum modo sabemos naturalmente que os edifícios ultradimensionados lançam já a sombra da sua destruição, concebidos que são desde a origem com vista a uma existência futura enquanto ruínas.»

(in austerlitz, trad. telma costa, teorema)

14.10.05

janela de oportunidade

estava aberta, a dois passos, escancarada. e o gestor suicida aproveitou.

parábola

toda a gente conhece a história de chuang-tzu.
um dia, o mestre taoísta sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, já não sabia se era um homem que sonhava ser uma borboleta ou uma borboleta que sonhava ser homem.
a história, porém, não termina aqui, onde toda a gente julga que ela acaba.
chuang-tzu (ou terá sido a borboleta?) foi apanhado mais tarde na rede literária de jorge luis borges e a borboleta (ou terá sido chuang-tzu?) foi apanhada na rede literal de vladimir nabokov.

terra queimada

paradoxo

o poeta anti-apartheid só escrevia versos brancos.

cena do crime

na terra queimada, sobre a cinza, as primeiras folhas verdes.

13.10.05

o casal perfeito

eram tão semelhantes como duas gotas de água e tão diferentes como dois flocos de neve.

tetranetos de diderot e d'alembert

procuramos entradas na enciclopédia, sabendo que dali não se sai.

azulejo

fotograma

há vidas que dão um filme e há vidas que dão um azulejo.

hora de ponta

quando estás atrasado, todos os mercedes são táxis.

12.10.05

gravata

a gravata é o ponto de exclamação (invertido) dos homens cinzentos.

pedras brancas

arte do flâneur: calcar o calcário.

calçada

inconfidência melancómica

não digam nada a ninguém, mas há coisa de cinco minutos vi a dona bina e o márcio nas escadas do prédio, aos beijos.

stand up comedy

aquele humorista era tão hilariante que até fazia rir as pedras da calçada.

11.10.05

fraldas & biberões

os gestos mecanizam-se, o olhar nunca.

sobre isto de ser pai

de repente, o centro de gravidade desloca-se para fora do nosso corpo (e nunca mais volta).

delicadeza

bebés

há uma delicadeza que é só deles.

oito meses

lembro-me da cor verde da sala de partos e da cor azul do primeiro choro.

10.10.05

alcoólico anónimo

embebeda-se todas as noites com as rubaiyat de omar khayyam.

dicionário alternativo

oriente - utopia para ocidentais insatisfeitos.

romãs

moeda de troca

silêncio: metal precioso.

ritual

colhia romãs de madrugada, antes que explodissem.

9.10.05

dois versos de murilo mendes

«morte, grande fêmea,
eu te justifico e te perdôo.»

(in poesia, livraria agir editora)

uma anunciação de fra angelico



annunciazione (1438)

um retrato físico de personagem masculina, por hélia correia

«para bem de todos, nunca edgar lebrão mostrou interesse em visitar a casa. quando se deslocava à capital — o que era raro e envolvia enigmas de amores ou de dinheiros que ninguém decifrou —, ficava por hotéis de fim de século onde rangiam tábuas enceradas e os baixos-relevos estucados nas paredes se iam sombreando de poeira. regressava depois à quinta, emagrecido, com rugas muito nítidas, os olhos afundados numa vermelhidão de álcool e estúrdia. embora baixo e magro, era belíssimo — dessa beleza de ouro, alucinada, que mais excita a alma que os sentidos e apavora as mulheres como a visão de um anjo.»

(in villa celeste, contraponto)

8.10.05

um detalhe de joão miguel fernandes jorge

«entre dois amargos sabores de café
uma e outra chávena afligem com símbolos
revolucionários
o esmalte em dois tons de azul,
a cercadura, frisos de ouro.»

(in museu das janelas verdes, relógio d'água)

uma marinha de j. m. w. turner



sunrise with sea monsters (c. 1845)

um aforismo de baltasar gracíán

«os rios são terríveis até alguém descobrir um vau e as pessoas são veneradas até os outros descobrirem o limite dos seus talentos.»

(in espelho de bolso para heróis, trad. ana cecília simões, temas da actualidade)

7.10.05

diz o paranóico

as verdadeiras conspirações são como os crimes perfeitos: ninguém dá por elas.

long distance call

de cada vez que atendia o telemóvel tinha a secreta esperança de ouvir a voz, há tantos anos desaparecida, do seu amigo imaginário.

telemóvel

escrito a giz num prédio em ruínas

cuidado: os ouvidos têm paredes.

tlp

a lista telefónica era tão antiga que já tinha as páginas amarelas.

6.10.05

being samuel beckett

muito difícil, isso de falhar melhor.

roleta russa

já perdera tudo na vida. não queria perder aquela bala.

piscina

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na prancha mais alta

lembro-me que os outros rapazes ignoravam olimpicamente as leis de newton, antes de cairem na água como maçãs.

hockney

«nesta casa», disse v., irónica, «a piscina fica na sala, mesmo por cima do sofá».

5.10.05

living etc

decore a sua casa com mnemónicas.

pátria

um dia, muitos anos depois, quis regressar à pátria. mas a pátria já lá não estava.

punho

quando se fecha

um punho só faz sentido quando se fecha.

5/10

era tão republicano, tão republicano, tão republicano que jogava xadrez com duas torres, oito peões, dois cavalos, dois bispos, um presidente e uma primeira-dama.

4.10.05

tempestade solar

ostensivamente despenteadas, aquelas madeixas de fogo.

pop star

era tão volúvel que a sua estátua no museu de cera derreteu ao fim de duas horas.

cera

radiação cósmica

para n., o amor é uma espécie de radiação cósmica: atravessa-nos sem que o saibamos, não se vê e interfere com o campo magnético.

meteorologia

nunca tentes prever o imprevisível.

3.10.05

cobardia

ele queria muito ser cobarde, só que não tinha coragem para isso.

critério

às pombas falta sobretudo critério: tanto pousam na cabeça de um herói em pedra como num poste de electricidade com a lâmpada fundida.

pombas

dicionário alternativo

televisão - a caixa que mutilou o mundo.

soldado

extirparam-lhe o medo do corpo, como quem extirpa um quisto. mas o vazio deixado pelo medo é que o assusta.

2.10.05

um dístico de arseni tarkovski

«porque o destino seguia-nos o rastro
como um louco com uma navalha na mão.»

(in 8 ícones, trad. paulo da costa domingos, assírio & alvim)

uma reflexão aquática de michelangelo merisi da caravaggio



narciso (c. 1597)

um parágrafo de samuel beckett

«uma praia. o entardecer. luz a morrer. em breve nenhuma para morrer. não. nada disso quando nenhuma luz. morrendo até à madrugada e nunca morrida. estás de costas para o mar. único som o dele. tão mais vago quanto mais vazando lentamente. até lentamente tornar a encher. estás apoiado num longo bastão. as tuas mãos descansam no punho e nelas a tua cabeça. se os teus olhos viessem a abrir-se veriam primeiro ao longe aos últimos raios as abas do teu casacão e os canos das tuas botas enterradas na areia. de seguida e só ela até desaparecer a sombra do bastão na areia. desaparecer da tua vista. noite sem lua e sem estrelas. se os teus olhos viessem a abrir-se o escuro acenderia.»

(in companhia, trad. de miguel castro caldas, ambar)

1.10.05

sete versos de alberto pimenta

«não sei
em que
recôncavo
do
corpo
começa
a primavera»

(in grande colecção de inverno 2001-2002, &etc)

uma visão feérica de wassily kandinsky



casal a cavalo (1906-07)

um pensamento de josé luís peixoto

«penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. um açude sem peixes, sem fundo, este céu. nuvens, veios ténues. e o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis.»

(in nenhum olhar, temas e debates)