11.9.05

um parágrafo de hélia correia

«o rapaz, soerguido, vigiava-a. não queria encorajá-la. o mal entrara dentro dos dois por via das palavras. e agora, com maneiras de ladrão, a coberto da noite, ela viera para falar mais, para remexer com a língua nessa história de cães, na coisa escura. ambos sabiam que aquilo tinha de ir para a frente, que o tempo não se suspendia assim, filho apoiado sobre o cotovelo, mãe em pé, de joelhos contra a cama, irmãs do outro lado da cortina, suspirando no sono. parecia que um relâmpago os cegara, que aguardavam o estrondo do trovão.»

(in bastardia, relógio d'água)