30.9.05

aluga-se

post espaçoso, preço módico, com vista para o technorati.

adagio molto con paura

pesadelo do primeiro violino: ser enterrado vivo no fosso da orquestra.

palimpsesto

ciclo vicioso

rasgar.
sobrepor.
voltar ao princípio.
escrever sempre o mesmo palimpsesto.

força da gravidez

quem tem um filho a crescer por dentro, levita.

29.9.05

change time & date

gostava de manipular o tempo, de moldá-lo aos seus caprichos.
por isso, também por isso, criou um blogue.

14h45

ele chegou outra vez atrasado. ela, como sempre, antes da hora.
a separá-los, muito mais do que a dança rígida dos ponteiros.

relógio

cronos

em tempos, fugi-te.

tic-tac

foi então que decidiram dar corda ao relógio biológico.

28.9.05

europa

ainda hoje espera por outro touro (não necessariamente branco) que a rapte.

toponímia

era um país tão pequeno que cabia inteiro numa avenida.

avenida

lebre

quando ainda tinha uma vida decente, os organizadores dos meetings internacionais de atletismo pagavam-lhe para espicaçar determinado atleta, então à beira de bater o record do mundo.
muitos anos e azares depois, ao fugir estrada fora após um assalto, sentiu chumbo a rasar as orelhas e o bafo dos cães, demasiado reais, que o perseguiam numa fúria insana.
em ambos os momentos, as pernas entregavam-se ao exagero fatal, à euforia que não olha para trás e precipita a desistência ou o desastre.

fatalidade

o rosto que mereces está sempre noutro espelho.

27.9.05

september song

traidor melancólico: o outono.

talhão dos generais

na sua campa, em vez de terra, lançaram pólvora.

cadeado

rebeldia

guardava tudo com um cadeado. até a rebeldia.

escrito a sul, sob o esplendor tão nítido do firmamento

os néons alimentam-se da luz das estrelas.
e depois devoram-nas.
e depois apagam-nas.

26.9.05

doppelganger

vivia no pânico de encontrar um dia o seu duplo, num corredor do metro, com a barba por fazer.

lisboa outra vez

esta cidade é quase uma afronta, com a rapidez a que nos desabituámos e as luzes sempre acesas.

rapidez

word count

a concisão também enferruja com a falta de uso.

dicionário alternativo

regresso - arte difícil; arte maior.

16.9.05

uma semana

neste blogue, até as férias são minúsculas.

reminder

não esquecer de verificar a pressão dos pneus e de pôr o eco (umberto) na bagagem.

on the road

como é que dizia o outro?

quatro palavras: nunca mais é sábado.

como é que dizia o kerouac?

três palavras: on the road.

15.9.05

ainda

depois de tudo acabar, ela ainda estava ali. entre as ruínas.

enquanto é tempo

admirem a forma como a luz morde, quando menos esperamos.

relance

contagem decrescente

já faltou mais, já faltou, já.

sinais de fadiga

a partir de certo momento, só via as coisas de relance.

14.9.05

coisa de poetas

andavam pela cidade, disponíveis e atentos, à procura do urogalo.

ossos

a nossa eternidade é branca.

cão

short story

aeroporto.
último beijo.
ela estende a mão, inflexível.
ele devolve-lhe as polaroids.

odisseia

a mais comovedora das personagens: argus. o único que reconhece ulisses depois do regresso a ítaca, o cão que morre de felicidade ao rever o dono, tanto tempo depois.

13.9.05

onde se lê x, leia-se y

a errata é o registo de horas extraordinárias do revisor desatento.

ecoponto

«e esta tristeza toda?», perguntava d., limpando as lágrimas. «coloco-a no azul, no verde ou no amarelo?»

metempsicose

lavoisier revisited

na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se recicla.

catalogando ideias absurdas

― e a metempsicose?
― mete em psicose.

12.9.05

explicação do silêncio

os blogues, como as pessoas, também tropeçam, também caem.
e depois levantam-se.

a/c bill gates & companhia

a máquina perfeita é aquela em que se instala desde logo, por default, o grão de areia e o pauzinho na engrenagem.

areia

dicionário alternativo

puritano – pessoa com medo do próprio corpo.

vertigo

uma loira é uma morena é uma loira é uma morena é uma loira.

11.9.05

um poema inédito de poeta inédito (as iniciais são m. f.)

«quarto

deitou-se a tarde sobre
os corpos estendidos,
ainda agora tocaram
lá em cima,
onde o tecto se inclina sobre a esquina de domingo
e todas as outras horas da semana.

há no mundo dois
cães longínquos,
um pássaro raro
e o arame que roda, e chia,
sobre si o peso da roupa
molhada.
qualquer coisa espelha uma outra qualquer
dois telhados antes do rio.

não sei quantas luzes são essas,
nem qual é o reflexo,
de onde vem o eco,
porque dormes
e sinto sobre nós,
deitado,
o vento de todas as tardes,
a respiração do teu amor.»

uma luz impossível, pintada por georges de la tour



la madeleine à la veilleuse (c. 1635-37)

um parágrafo de hélia correia

«o rapaz, soerguido, vigiava-a. não queria encorajá-la. o mal entrara dentro dos dois por via das palavras. e agora, com maneiras de ladrão, a coberto da noite, ela viera para falar mais, para remexer com a língua nessa história de cães, na coisa escura. ambos sabiam que aquilo tinha de ir para a frente, que o tempo não se suspendia assim, filho apoiado sobre o cotovelo, mãe em pé, de joelhos contra a cama, irmãs do outro lado da cortina, suspirando no sono. parecia que um relâmpago os cegara, que aguardavam o estrondo do trovão.»

(in bastardia, relógio d'água)

10.9.05

um poema em prosa de antonio sáez delgado

«o céu está quieto e mudo, devora tudo na fria penumbra desta solidão agreste, alheio à erosão feroz do costume.
uma nuvem atravessa a memória.
entre as ruínas reluz um punhado de mentiras, a vida disfarçada com roupas quotidianas.
que armas nos restam perante tanto passado, se não habitarmos esta luz mansa que cai sobre os nossos passos e ressoa sempre na distância?»

(in dias, fumo, trad. ruy ventura, alma azul)

um herói de hugo pratt



corto maltese (1887-?)

um dos 38 fragmentos textuais do Big Bang de aaron slobodj

«quando acordou compreendeu que dormira durante 50 anos. curiosamente, as roupas e os cortes de cabelo não tinham mudado em nada.»

(in a última obra-prima de aaron slobodj, de josé carlos fernandes, devir)

9.9.05

perfil (2)

podia dizer-se que era um escritor como o chatwin, se nos limitássemos às botas e ao moleskine.

piscina

crawl no cloro.

mapa-múndi

viagem à volta do meu quarto

cada parede, um oceano.

perfil

podia dizer-se que era um escritor como o flaubert, se nos limitássemos ao bigode.

8.9.05

hades

já lá estavam todos há muito tempo, ignorando ainda que não regressariam nunca.

nonagenário

de manhã muito cedo, o senhor w. sai à rua com a morte atrás, puxada pela trela.

qualquer coisa

portões

todos os portões têm qualquer coisa de mortal.

malhas urbanas

há cidades que foram feitas para as pessoas se encontrarem e cidades que foram feitas para as pessoas se perderem.

7.9.05

inter-rail

muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra, muita-terra.

carimbos

era tão bom a falsificar passaportes que até acrescentava, a pedido do cliente, carimbos de países esquisitos.

destinos

teoria geral do viajante

querer, como destino, mil destinos.

partir

ele chegava e partia, chegava e partia, chegava e partia.
durante as esperas, ela ordenava o caos e colava os cacos.

6.9.05

década de 70

primeiros anos, primeiras memórias, primeiros despojos.

para a troca

no pátio da escola, cromos e declarações solenes de amizade eterna.

despojos

berlindes

depois de alinhadas três pequenas covas na terra seca, esperávamos ansiosos a inconfundível música das esferas.

infância

tesouros: tudo aquilo que trazíamos nos bolsos.

5.9.05

camionista camonista

encostava o tir nas estações de serviço para beber uma imperial e avançar na exegese dos sonetos de luiz vaz.

bailarina

uma noite, durante o salto, apercebeu-se que os braços dele não estavam lá.

luz verde

director de fotografia

quando lhe deram luz verde, ele já só a queria azul anil.

engomadeira

passava a ferro, com esmero, o colarinho das camisas de seda e a primeira sílaba das palavras esdrúxulas.

4.9.05

uma frase recebida ainda há pouco por e-mail

«sinto falta de tempo para as coisas mínimas que asseguram o bom funcionamento dos sorrisos.»

(autor anónimo devidamente identificado)

uma tela de diego velázquez



las meninas (1656)

um fragmento de gonçalo m. tavares com título de filósofo francês

«havia uma técnica para escrever e uma técnica para ser escrito. o escritor tem uma técnica para escrever, assim como o papel em branco tem uma técnica para ser escrito.
ser fraco é uma técnica, tal como ser forte. tudo pode ser feito de um modo melhor ou pior. a alegria ou um planeta. o sol pode ser sol de modo mais eficaz ou menos. estou a olhar para ti, tu para mim, e enquanto mantivermos quatro olhos lúcidos e cruzados nenhuma maldade existirá. mas ninguém consegue manter os olhos claros sobre outros olhos claros durante muito tempo. a maldade é um objecto que encontrarás na manhã seguinte. onde quer que adormeças esse objecto encontra-te.»

(michel foucault, in biblioteca, campo das letras)

3.9.05

três versos de cecília meireles

«nós estaremos na morte
com aquele suave contorno
de uma concha dentro d'água.»

(in antologia poética, relógio d'água)

uma abstracção de juan gris



retrato de josette (1916)

um paradoxo de isabel de sá

«escrevo na tentativa de renunciar ao apelo desse corpo que é a escrita.»

(in repetir o poema, quasi)

2.9.05

ilusões contemporâneas

― isso não existe.
― como é que podes ter a certeza?
― vi no google.

new orleans (2)

estamos sempre a um passo da barbárie.

posteridade

dicionário alternativo

estátua - um dos castigos da posteridade.

frase

não há nada mais fácil do que escrever uma frase nem nada mais difícil do que escrever uma frase.

1.9.05

a fasquia

em tudo aquilo a que se lançava, punha a fasquia alta, cada vez mais alta, altíssima. tão alta que com o tempo deixou de a ver.

man at work

entre duas tarefas, meia dúzia de palavras.
como outros fumam um cigarro.

universos paralelos

new orleans

trágica e assustadora, a veneza involuntária.

azar cósmico

com tantos universos paralelos, caiu logo no único perpendicular.