27.8.05

um soneto de josé luís tavares

«ignorar os desígnios da manhã, eu disse
— que coração a essa hora não vacila
ainda em contramão? quem predisse
a faca no ombro, o ruivo empurrão na fila,

o prodígio tramando com o susto? o soco
ainda frio do anjo-rapaz é maquinaria
de que desconhecemos o segredo, seu eco
constelando augúrios na penumbra alvadia.

amotinada idade em que os domingos
abriam fendas ali onde sabe o sangue
que não há navalha que conjure o desastre:

amadurece como uma visão de flamingos
à ilharga do estuário, incomovível mestre
que exuma sustos num polido bang bang.»

(inédito gentilmente oferecido ao autor deste blogue)