13.8.05

um lamento de enrique vila-matas

«a literatura, disse para comigo, está a ser acossada, como nunca o tinha sido até agora, pelo mal de montano, que é uma perigosa doença de mapa geográfico bastante complexo, pois é composto pelas mais diversas e variadas províncias ou zonas maléficas; uma delas, a mais visível e talvez a mais povoada e, em todo o caso, a mais mundana e mais néscia, acossa a literatura desde os dias em que escrever romances se converteu no desporto favorito de um número quase infinito de pessoas; dificilmente um diletante desata a construir edifícios ou, logo à primeira, a fabricar bicicletas sem ter adquirido uma competência específica; acontece, pelo contrário, que toda a gente, exactamente toda a gente, se sente capaz de escrever um romance sem nunca ter aprendido nem sequer os instrumentos mais rudimentares do ofício, e acontece também que o vertiginoso aumento destes escribas acabou por prejudicar gravemente os leitores, mergulhados hoje em dia numa notável confusão.»

(in o mal de montano, trad. jorge fallorca, teorema)