29.8.05

cinco pregos

quando a campainha se fez ouvir de novo, pete deixou o martelo pousado na mesa da sala e foi abrir a porta que dava para o jardim. entre os lábios, com a ponta afiada para fora, cinco pregos.
mal o viu, reconheceu imediatamente o rosto atrás da porta de rede. era carver, raymond carver, o vizinho escritor e alcoólico.
«pode oferecer-me alguma coisa que se beba?», perguntou ele, coçando a barba mal feita, os olhos semicerrados por causa da luz forte do meio-dia.
pete abriu a porta, guardou os pregos no bolso e foi buscar gin, copos, duas cadeiras, um balde de plástico com gelo.
daí a muitos anos, pensou, aquele desgraçado de mãos trémulas talvez viesse a inclui-lo, a ele, com outro nome mas os mesmos gestos, num conto qualquer. tinha quase a certeza de que o faria. e meia garrafa de gin era um preço perfeitamente aceitável para tão precária eternidade.