31.8.05

agosto

vai morrendo devagar, para lá do parapeito.

tejo

segredo azul entre as casas.

alfama

escadinhas

diminutos degraus diminutivos.

vida de bairro

em alfama, cada janela aberta é um filme neo-realista.

30.8.05

reductio ad absurdum

encher o ipod com música pimba.

homodiegético

há histórias que puxam tudo lá para dentro. até o narrador.

mosaicos

gaza

a geografia, esse veneno dos povos.

deformação profissional

depois de um dia inteiro a assentar mosaicos, o ladrilhador continuou até de madrugada às voltas com aquele puzzle dificílimo ― mil peças, só mar e nuvens ― que a sogra lhe trouxe do canadá.

29.8.05

fuso

o jet lag acontece quando alguém se pica num fuso horário.

pete

nunca saía para a rua com a multidão, no 4 de julho. o fogo-de-artifício reflectido nas águas trazia-lhe a infância e a infância deixava-o melancólico.

fogo-de-artifício

cinco pregos

quando a campainha se fez ouvir de novo, pete deixou o martelo pousado na mesa da sala e foi abrir a porta que dava para o jardim. entre os lábios, com a ponta afiada para fora, cinco pregos.
mal o viu, reconheceu imediatamente o rosto atrás da porta de rede. era carver, raymond carver, o vizinho escritor e alcoólico.
«pode oferecer-me alguma coisa que se beba?», perguntou ele, coçando a barba mal feita, os olhos semicerrados por causa da luz forte do meio-dia.
pete abriu a porta, guardou os pregos no bolso e foi buscar gin, copos, duas cadeiras, um balde de plástico com gelo.
daí a muitos anos, pensou, aquele desgraçado de mãos trémulas talvez viesse a inclui-lo, a ele, com outro nome mas os mesmos gestos, num conto qualquer. tinha quase a certeza de que o faria. e meia garrafa de gin era um preço perfeitamente aceitável para tão precária eternidade.

de repente

a lucidez é uma arma ambígua.

28.8.05

dois haikus de issa kobayashi

«dia de primavera
demorando-se
em tudo o que é água

neste mundo
por cima do inferno
contemplo as flores»

(in primeira neve, versões de jorge sousa braga, assírio & alvim)

uma aguarela de albrecht dürer



lebre (1502)

uma conclusão de john banville

«Praga, como disse Kafka, tem garras e não nos larga. Dou a última palavra a Ripellino, a minha inspiração e cicerone incansavelmente entusiástico. 'Quando procuro uma outra palavra para mistério', escreve ele, 'a única palavra que encontro é Praga. É escura e melancólica como um cometa; a sua beleza assemelha-se à sensação do fogo, sinuosa e oblíqua como as anamorfoses dos maneiristas, com uma aura lúgubre de decadência, um sorriso irónico de eterna desilusão.'»

(in imagens de praga, trad. teresa casal, asa)

27.8.05

um soneto de josé luís tavares

«ignorar os desígnios da manhã, eu disse
— que coração a essa hora não vacila
ainda em contramão? quem predisse
a faca no ombro, o ruivo empurrão na fila,

o prodígio tramando com o susto? o soco
ainda frio do anjo-rapaz é maquinaria
de que desconhecemos o segredo, seu eco
constelando augúrios na penumbra alvadia.

amotinada idade em que os domingos
abriam fendas ali onde sabe o sangue
que não há navalha que conjure o desastre:

amadurece como uma visão de flamingos
à ilharga do estuário, incomovível mestre
que exuma sustos num polido bang bang.»

(inédito gentilmente oferecido ao autor deste blogue)

uma das muitas torres eiffel de robert delaunay



la tour rouge (1911–12)

uma frase de cesare pavese que resume tudo

«andei à minha procura.»

(excerto do bilhete de despedida deixado pelo escritor italiano dentro de um livro, na mesa-de-cabeceira do quarto onde se suicidou, e que só esta semana foi divulgado)

26.8.05

tempus fugit

para figurar o seu tormento, hesitava entre a água e a areia: o oceano da clepsidra, o deserto da ampulheta.

bwv 82

aprendeu a tocar oboé só para sentir, sob os dedos, aquela melodia.

a própria sombra

work in progress

o verbo fundamental para quem escreve: emendar.

complexo de schlemihl

espreita a própria sombra sempre que pode, obsessivamente, com medo que fuja.

25.8.05

últimas palavras

ao longo da vida, ensaiou mil vezes as últimas palavras. no momento da morte, porém, limitou-se a chorar como chora um bebé logo depois de nascer.

primeira pessoa

o narrador pragmático decidiu escrever na primeira pessoa.
na primeira pessoa que encontrasse.

self

profissões

o meu pai é topógrafo: calcula o lugar exacto onde ficam os postes eléctricos.
eu sou blogger: calculo o lugar exacto onde ficam os posts electrónicos.

negócio lucrativo

abriu ontem um self service (sem hífen). vende egos novinhos em folha a clientes com baixa auto-estima.

24.8.05

satélite

nas imagens de satélite, portugal é são sebastião (trespassado pelo fumo e pela cinza).

agora

costumava guardar, numa pasta, fotografias de árvores.
agora pergunta-se quantas dessas árvores já terão ardido.

árvores

nero

alguém devia ter dito qualquer coisa ao comandante dos bombeiros, quando ele decidiu chamar nero a um dos seus cães.

pensem nos incêndios, por exemplo

devíamos traduzir à letra a expressão breaking news: notícias que se partem, notícias que nos quebram, notícias que esmagam.

23.8.05

una notte a udine

o pesadelo continua, tem vida própria, exibiu ainda há pouco os seus requintes de malvadez.

o pugilista politicamente correcto

no ringue, faz questão de vencer os adversários por ok.

ok

dicionário alternativo

dentista - torturador benigno.

pedra

estava tão cansado que até sísifo, com a pedra às costas, lhe ofereceu ajuda.

22.8.05

histórias da imigração eslava (4)

para ele e para os outros doze compatriotas, o contentor onde dormem ― sórdido, miserável, desumano ― é apenas um contentor.
para o sub-empreiteiro português ― fio de ouro grosso, telemóvel na bolsinha do cinto, mercedes com matrícula começada por k ― é um «condomínio de luxo».

histórias da imigração eslava (3)

na moldávia, dmitru desenhava prédios. em portugal, monta tapumes e andaimes.

subúrbios

histórias da imigração eslava (2)

diz viktor: «lisboa é muito diferente de kiev, mas os subúrbios são quase iguais».

histórias da imigração eslava (1)

em moscavide, tatiana sonha com a neve nos telhados de moscovo.

21.8.05

um poema doméstico de joão luís barreto guimarães

«havia um
relógio
de sala
castanho

tão esguio
tão esguio
quase não

ocupava
espaço
nenhum.

o seu
bom-dia
(porém)
espalhava-se pela casa toda»

(in 3, gótica)

uma torre de babel crepuscular pintada por pieter bruegel



torre de babel (1563)

um aforismo de susan sontag

«ninguém pode pensar e bater em alguém ao mesmo tempo.»

(in olhando o sofrimento dos outros, trad. josé lima, gótica)

20.8.05

uma história em sete versos de adília lopes

«fedra está apaixonada
por hipólito
hipólito não está apaixonado
por fedra
fedra enforca-se
hipólito morre
num acidente»

(in quem quer casar com a poetisa?, antologia de valter hugo mãe, quasi)

um manifesto de giorgio de chirico



la conquista del filosofo (1913)

uma frase final de joão césar monteiro

«temos que aprender a gastar a infelicidade que nos resta.»

(in à flor do mar, 1986)

19.8.05

linha azul

tózé diz-se metrossexual porque anda há muitos anos a seduzir miúdas entre sete rios e o colégio militar.

despromoção

de guarda no turno para guarda-nocturno.

nocturno

crime perfeito

a paixão de cristo, planeada por deus.

terebentina

esfregou outra vez o passado, mas as nódoas não desapareciam.

18.8.05

alfândega

de mãos nos bolsos, assisto ao contrabando: palavras, cigarros, flores, o fim da tarde.

frágil

a caixa dos copos de cristal.
a caixa com chávenas de porcelana fina.
a caixa onde escondemos os diários da adolescência.

fim da tarde

dicionário alternativo

cartão de crédito - espada de dâmocles plastificada.

morgue surrealista

à porta, um aviso: «aqui só se aceitam cadáveres esquisitos».

17.8.05

(escrevo sempre com dois dias de avanço)

dez posts em draft, à cautela, quando a realidade do mundo não se intromete.

da prudência

viu a mala abandonada na rua e nem sequer lhe tocou. lá dentro tanto podia encontrar 100.000 euros como um imigrante clandestino em posição fetal.

mala

sigilo profissional

não dizia nada a ninguém. a ninguém mesmo. nem sequer ao seu cliente.

parábola do poeta caído em desgraça

aguardava em vão o primeiro verso, «oferecido pelos deuses», ignorando que os deuses também podem ser cínicos e avaros.

16.8.05

spam

queixa-se um columbófilo a outro columbófilo: «não sei se contigo acontece o mesmo, mas ultimamente só recebo pombos-correio tresmalhados e cheios de vírus».

deslocalização

um dia, até as etiquetas a dizer made in portugal serão feitas na china.

poemas escritos na porta do frigorífico, com ímans

romantismo pós-moderno

foi então que ele lhe ofereceu a lua ― uma lua de plástico, comprada na loja dos trezentos.

magnetic poetry

ao contrário dos iogurtes, os poemas escritos na porta do frigorífico, com ímans, não têm prazo de validade.

15.8.05

do exibicionismo à direita

pior do que os neo-conservadores, só os néon-conservadores.

featuring

era um cantor pimba, mas com uma certa sofisticação. o seu último dueto, por exemplo, em vez da referência simplória à "artista convidada", anunciava-se como um tema de bruno alexandre featuring vanessa soraia.

sala

voyeur

de longe, qualquer um pode sentar-se à mesa na sala dos vizinhos.

meias palavras

escrevia em doses homeopáticas para leitores cansados de ler.

14.8.05

um poema de maria do rosário pedreira

«nada entre nós tem o nome da pressa.
conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas ―
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
daríamos sempre pelo mais pequeno engano.»

(in a casa e o cheiro dos livros, gótica)

um nu de edward weston



nude floating (1939)

uma análise sentimental de agustina

«era um amor de admiração, que é pior do que o amor carnal. de resto, a vanessa não seduzia ninguém nos encontros de cama que não fossem antecipados pela admiração que, quando acontece com os homens por uma mulher, é mais fatal do que o sexo. a admiração contamina tudo: a alma, a esperança, o desejo. o princípio da incerteza fica suspenso da admiração como um ninho de um galho de árvore.»

(in jóia de família, guimarães)

13.8.05

oito versos de t. s. eliot

«na praia, um ramo retorcido
liso, polido e desgastado
como se o mundo divulgasse
o segredo do seu esqueleto,
hirto e branco.
mola partida num pátio de fábrica,
ferrugem colada à forma que a força deixou
enrolada e tensa e quase a rebentar.»

(in prufrock e outras observações, trad. joão almeida flor, assírio & alvim)

nove marilyns de andy warhol



marilyn (1967)

um lamento de enrique vila-matas

«a literatura, disse para comigo, está a ser acossada, como nunca o tinha sido até agora, pelo mal de montano, que é uma perigosa doença de mapa geográfico bastante complexo, pois é composto pelas mais diversas e variadas províncias ou zonas maléficas; uma delas, a mais visível e talvez a mais povoada e, em todo o caso, a mais mundana e mais néscia, acossa a literatura desde os dias em que escrever romances se converteu no desporto favorito de um número quase infinito de pessoas; dificilmente um diletante desata a construir edifícios ou, logo à primeira, a fabricar bicicletas sem ter adquirido uma competência específica; acontece, pelo contrário, que toda a gente, exactamente toda a gente, se sente capaz de escrever um romance sem nunca ter aprendido nem sequer os instrumentos mais rudimentares do ofício, e acontece também que o vertiginoso aumento destes escribas acabou por prejudicar gravemente os leitores, mergulhados hoje em dia numa notável confusão.»

(in o mal de montano, trad. jorge fallorca, teorema)

12.8.05

aforismo publicitário

um brainstorming só funciona se alguém na sala fizer de pára-raios.

crise de identidade

andava tão confuso que criou um heterónimo chamado fernando pessoa.

labirinto

alfinetes

é favor não confundir etnologia com entomologia.

impressão digital

todos trazemos, no dedo indicador direito, um labirinto.

11.8.05

o teu nome repetido é o meu mantra

alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice, alice.

amor de pai

agora percebo aquelas tatuagens que certos homens trazem no braço, em verde sumido, junto a uma data africana.

2.12

primeira noite

ainda no quarto 2.12, aprendemos a ser uma família.

fiat lux

há precisamente seis meses, o mundo voltou a nascer para mim, quando ela nasceu para o mundo.

10.8.05

0-1

a pior das maldições? ser sportinguista.

political compass

ideologicamente, d. era um okapi: nem girafa, nem zebra.

su doku

dicionário alternativo

soneto - campo de treino dos poetas.

passatempo

por vezes comparava a sua vida ao su doku matinal: para resolvê-la, bastaria um pouco de lógica e muita persistência.

9.8.05

b-29

de regresso a casa, que terão dito as tripulações?

nagasaki

depois do little boy, o fat man. a mesma explosão impossivelmente luminosa, um sol maligno rente ao chão, a morte sem rosto infiltrando-se em tudo, até nos genes dos que tiveram o azar de sobreviver.
e aquela nomenclatura das bombas: obscena, obscena, obscena.

stop

soletrem comigo (como quem agradece uma bênção)

c-h-u-v-a.

transcrição

play. stop. rewind. stop. play. stop. rewind. stop. play. stop. fast forward. stop. play. stop. rewind. stop. play. stop. fast forward. stop. play. stop. rewind. stop. play. pause.
(«já encontrei. anda cá ouvir.»)
play. stop. rewind. stop. play. stop. rewind. stop. play. stop. rewind. stop. play. stop.
(«achas mesmo? de certeza? bem me parecia.»)
eject.

8.8.05

medidas de urgência para sair da crise

ponto único: adiar a procrastinação.

112

depois de ler os relatórios estatísticos do ine, só apetece chamar o inem.

natureza morta

efeito de doppler

dentro da ambulância morre devagar este narrador.

cinismo industrial

o dono da fábrica mais poluente do país encomendou a um conhecido pintor ecologista uma natureza morta.

7.8.05

uma arte poética de juan luis panero

«a comprida, vagarosa língua da morte
lambeu a mão daquele que escreve,
lucidez ou loucura, ninguém sabe:
só restam palavras, palavras roídas.»

(in antes que chegue a noite, trad. antónio cabrita e teresa noronha, fenda)

um delírio arquitectónico de giovanni battista piranesi



prancha vi dos carceri (1749-1761)

uma conclusão resignada de alain de botton

«deixaremos de ser dominados pela ira quando deixarmos de ter tantas esperanças.»

(in o consolo da filosofia, trad. joaquim n. gil, dom quixote)

6.8.05

dois versos de francisco brines

«o tempo é mau ladrão: somente rouba ao homem
seus territórios de infeliz mendigo.»

(in a última costa, trad. josé bento, assírio & alvim)

uma metáfora de rené magritte



les amants (1928)

um rasgo de nelson rodrigues

«(...) ele passa as costas da mão na boca, como se limpasse, dos lábios, a memória de todos os beijos.»

(in pouco amor não é amor, companhia das letras)

5.8.05

pós-produção

viciara-se de tal forma no ecrã verde que já não acreditava em paisagens verdadeiras.

no metro

de repente, a modelo involuntária pareceu constrangida (como se soubesse que o rapaz lhe estava a pintar, com uma esferográfica bic azul, as unhas dos pés).

esqueleto metálico

ruínas

na fachada da velha fábrica em ruínas, o esqueleto metálico que a sustém ganhou ferrugem.

alfarrabista

debaixo do pó, no meio do lixo, a raridade.

4.8.05

tacto

b. ainda esperava toques que não fossem de telemóvel.

lâmina

queria imitar corto maltese: a inexistente linha da sorte desenhada a frio, com uma lâmina.

linha da sorte

pele

a pele recorda tudo (até o que já esquecemos).

quiromância

ainda miúdo, uma cigana jurou-lhe: «estás destinado a morrer por volta dos 50 anos, na miséria, sem ninguém».
aos 23, para demonstrar o seu amor à mulher com quem casaria cinco meses mais tarde, queimou de propósito a palma da mão esquerda num bico de gás (como certa personagem de um filme de andrei konchalovsky).
faleceu rico, sem dor, feliz e rodeado pela imensa família, aos 97.

3.8.05

dicionário alternativo

programa polis - a corporación dermoestética das cidades com centro histórico.

aviso aos autarcas

o triunfo das rotundas merece uma derrota das rotundas.

aldeia

ordenamento do território

queriam ordená-lo, à força de leis e regras, mas o território resistia, com o apoio cúmplice dos agentes do caos.

bucolismo urbano

f. ponderava seriamente mudar-se para uma aldeia: «uma aldeia assim tipo bairro alto ou madragoa».

2.8.05

aquela coisa aguda, íngreme, desesperada

consigo habituar-me a tudo, menos ao grito dos pavões.

suicida caprichoso

ficou na berma da estrada, à espera, noite dentro. queria morrer atropelado, mas não por um automóvel qualquer.

eclipse

pensamento mágico

nas suas deambulações pelas ruas de lisboa, v. faz questão de só pisar as pedras negras da calçada à portuguesa. há uns anos, quando por distracção pousou um pé numa das pedras brancas, ouviu minutos mais tarde que estava um petroleiro a afundar-se na costa da malásia (e ela prefere não correr riscos).

o medo maior

que a escuridão chegue de repente, como num eclipse.

1.8.05

bronze

sobre a areia todos se contentam com o terceiro lugar.

serviço de socorro a náufragos

as miúdas giras iam saindo da água ― ilesas, magníficas, botticellianas, movendo-se em câmara lenta para outros olhos ― enquanto ele ficava a tarde inteira junto à bandeira verde, fazendo respiração boca-a-boca a septuagenárias e homens de bigode.

biblioteca

época balnear

dante só descreveu o inferno com aqueles círculos, labaredas e tormentos porque nunca foi à fonte da telha em agosto.

férias

perguntavam-lhe: campo ou praia?
respondia: biblioteca.