31.7.05

um post de pedro mexia

«razões para escrever posts em agosto

ninguém lê blogues em agosto.»

(in fora do mundo)

uma gravura de edward hopper



night shadows (1921)

um desabafo de sebastião alba

«sinto que já não posso escrever, como dantes, de borco, sob um candeeiro de iluminação pública, em qualquer papel.»

(in albas, quasi)

30.7.05

excerto de um diálogo entre luís quintais e groucho marx

«o fragmento como procedimento metodológico é um talento de distraídos e de melancólicos.»

(in casmurro, post vá à ópera)

um retrato de gerhard richter



onkel rudi (1965)

uma estrofe do poeta quase homónimo

«tudo começa com um tráfico de brandos
venenos. as cassetes circulam, recados
acesos, de mão para mão, demarcam
as horas. essa cumplicidade fácil assegura-nos
uma espécie de virtude ― o primeiro susto.»

josé miguel silva (in vista para um pátio seguido de desordem, relógio d'água)

29.7.05

fundamentalismo melómano

era tão mahleriano que só comia iogurtes adagietto.

guilhermina

o violoncelo é um amante que se abraça por trás.

cinco linhas paralelas

steinway & sons

por aquele piano de cauda passaram nove pianistas e dois afinadores. nenhum sobreviveu.

credo

acredito que a beleza mais pura cabe toda em cinco linhas paralelas (cf. j. s. bach).

28.7.05

a espuma dos séculos

da mítica grandeza de sagres, sobrou o quê?
um promontório mar adentro.
os exageros retóricos de certos historiadores.
o navio-escola de três mastros.
o nome num rótulo de cerveja.
pouco mais.

2030

antevisão de pesadelo financeiro (remix): o país transformado num parque eólico, gigantescas hélices de norte a sul e nem sequer uma brisa.

sagres

tgv

nos meus
olhos a
paisagem
acumulava-se,
retorcia-se,
devorava-se
a si mesma,
era já outra
coisa.


[publicado anteriormente em a semiologia segundo tarzan taborda - colectânea de textos do concurso jovens criadores 2002, edição clube português de artes e ideias]

dicionário alternativo

otário - indivíduo que defende, com ardor mas sem argumentos, a construção do aeroporto da ota.

27.7.05

save as draft

escreveu durante anos o mais genial dos blogues, mas não chegou a publicar um único post.

esclarecimento aos mais novos

molière, embora também seja conhecido pelas suas célebres pancadas, não se distinguiu como lutador de wrestling.

sms

delirium tremens

ao fim de 72 horas sem acesso à internet, o blogger compulsivo foi devorado por um template cheio de flores carnívoras de cor fúchsia.

iso 9001

devíamos certificar a qualidade de todas as coisas que são fundamentais: guarda-chuvas, fechos éclair, vidros duplos, mas também mensagens sms, arco-íris, beijos.

26.7.05

happy end (variação sobre um tema de gabriel garcía márquez)

cinquenta anos depois de a ter visto sair da igreja, casada com outro homem, declarou-lhe finalmente o seu amor. agora viúva, ela disse logo que sim, enquanto o futuro barco nupcial se aproximava do cais.

discussão

quando a jarra se partiu, até as flores secas se desfizeram no meio dos cacos.

jarra

noções de geometria afectiva

os triângulos amorosos nunca são equiláteros.

cosa mentale

embora a esposa só lhe permitisse a posição do missionário, o fidelíssimo senhor sousa conseguiu explorar pouco a pouco (na sua cabeça) o catálogo completo do kamasutra.

25.7.05

caixa negra

no rescaldo de cada relação falhada, lia de novo todos os e-mails e sms, à procura do erro humano.

linhas aéreas

certo poeta só era capaz de escrever em estado de suspensão: lá em cima, a dez mil metros de altitude, por cima das nuvens, entre dois continentes. os críticos, rendidos, gabavam-lhe a leveza dos versos.

lá em cima

air icarus

quando a máscara lhe caiu à frente e as hospedeiras foram projectadas contra a porta do cockpit, lembrou-se de que algo não batia certo no nome daquela companhia low cost. mas agora era tarde demais.

birdwatching

os verdadeiros especialistas reconhecem as aves pelo canto e os aviões pelo ronco dos motores.

24.7.05

três versos de luiza neto jorge

«há um jogo de relâmpagos sobre o mundo.
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra.»

(in a lume, assírio & alvim)

uma tela de paula rego



kiss, da série dancing ostriches from walt disney's fantasia (1995)

excerto de uma resposta de peter sloterdijk (com uma frase de rené char dentro)

«existe sempre quantidade suficiente de pequena noite, de pequena indiferença e de pequenas pausas da vontade. se isto já estivesse compreendido, de que serviria ainda a redenção com as suas trombetas e o seu princípio? a transcendência é uma dimensão rítmica e não metafísica. estamos sempre suficientemente noutro lugar. quem está realmente lá? e quando? há pouco tempo, encontrei não sei onde em rené char uma frase que me ficou na cabeça: se o homem não fechasse soberanamente os olhos de tempos a tempos, escreve ele, em breve não teria mais nada que merecesse ser contemplado.»

(in ensaio sobre a intoxicação voluntária, um diálogo com carlos oliveira, trad. cristina peres, fenda)

23.7.05

três versos de ana paula inácio

«transporto material muito fino
vidro assoprado
por ares assassinos»

(in as vinhas de meu pai, quasi)

uma fotografia de andré kertész

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wandering violinist, albony, hungary (1921)

um olhar de roland barthes

«por muito fulgurante que seja, o punctum possui, mais ou menos virtualmente, uma força de expansão. essa força é muitas vezes metonímica. kertész tem uma fotografia (1921) que representa um cigano cego, a tocar violino, conduzido por um miúdo; ora aquilo que vejo, através desse "olho que pensa" e que me faz acrescentar qualquer coisa à fotografia, é a calçada de terra batida: a terra dessa calçada dá-me a certeza de estar na europa central.»

(in a câmara clara, trad. manuela torres, edições 70)

22.7.05

terramoto

quando o grande terramoto sacudiu a cidade, com o fragor de um castigo bíblico, a primeira coisa em que pensou foi no lustre da avó cremilde, tão antigo e de cristal.

rosa dos ventos

cada pétala, um furacão.

caracóis

columbófilo ao quadrado

a todos os seus 1342 pombos deu o mesmo nome: cristóvão.

redundância

comia caracóis a olhar para os caracóis da menina dos caracóis.

21.7.05

escadas rolantes

uma ilusão contemporânea: a de que se pode subir sem esforço.

gesso

ainda naquela manhã, visitou o amigo no hospital e assinou-lhe o gesso (mesmo por baixo da frase: «fui eu que te empurrei»).

subir

centro comercial

-30%, -40%, -50%, -60%, -70%.
os saldos das lojas imitam o saldo do multibanco.

parafilia

tatuava no corpo uma fragilidade imaginária: nódoas negras, cicatrizes, fracturas expostas.

20.7.05

conto da lua vaga

já só procura o amor nos sonhos ou em lugares ainda mais desabitados.

winterreise

a meio do recital, inexplicavelmente, começou a nevar dentro da sobreaquecida sala de concertos.

lugares ainda mais desabitados

caçador nocturno

regressa de madrugada, os perdigueiros exaustos, meia dúzia de estrelas à cintura.

dicionário alternativo

galáxias - migalhas da primeiríssima luz.

19.7.05

atropelamento & fuga

o défice já vai longe, no seu topo de gama (6.83 de cilindrada).
portugal, quase morto, agoniza na berma.
«estava vermelho para os peões», explica a testemunha ocular.

revista de imprensa

com a crise, até as gordas dos jornais (lidas à pressa no quiosque) ficaram magras.

coca-cola

desintoxicação alimentar

cheirou cola. snifou coca. hoje só bebe refrigerantes.

amarelo fluorescente

anda pela cidade a colidir com outros veículos (nada de grave, só chapa) pelo simples prazer de envergar o colete obrigatório, adquirido a três euros no hipermercado.

18.7.05

conrad revisited

tão perto, o coração das trevas.

metáfora do medo

o medo é um cão raivoso e com dentes afiados, à solta no nosso século.

trevas

arte poética

esquece tudo muitas vezes.
depois, lembra-te.

hora de ponta

ninguém consegue ser lírico numa carruagem apinhada.

17.7.05

cinco versos de manuel gusmão

«este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido - aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.»

(in migrações do fogo, caminho)

um quadro de pierre-auguste renoir


à bout de souffle (1959)

uma resposta de jean-marie straub

«todos os filmes são documentários. quando godard filmava à bout de souffle, dizia: é um documentário sobre belmondo e jean seberg.»

(in jean-marie straub e danièle huillet falam, selecção de várias entrevistas do casal a revistas cinematográficas, feita por antónio rodrigues no catálogo do ciclo straub-huillet, realizado na cinemateca portuguesa em 1998)

16.7.05

uma ars poetica de luís miguel nava

«o mar, no seu lugar pôr um relâmpago.»

(in poesia completa, 1979-1994, dom quixote)

um estudo de john constable
















study of clouds (1821)

uma entrada do «diário das nuvens» de johann wolfgang goethe

«sábado, 27 de maio, 1820
cumulus felpudo, a dissolver-se em cirrus, estes a aproximarem-se e a subir, aquele novamente a encher e a descer. parecia que estes fenómenos se passavam em três níveis sobrepostos. o dia cada vez mais a querer dissipar as nuvens e a ficar ameno.»

(in o jogo das nuvens, trad. joão barrento, assírio & alvim)

15.7.05

cento e oitenta graus

o grande negócio que balsemão ainda não vislumbrou: fundir a newsweek de laveiras com a new yorker de vilarelho e lançar uma nova revista chamada visão periférica.

história de um avançado-centro à antiga

chamavam-lhe craque no boavista, agora é olheiro do olhanense.

olho

ciclope

em terra de cegos, ele era o rei.

slogan oftalmológico

olho por olho, lente por lente.

14.7.05

círculos

os círculos fecham-se mas a chama, dentro deles, não se apaga.
aquece. ilumina. queima.

o sangue dos outros

calcanhar de aquiles das utopias: o sangue dos outros, derramado em vão.

chama

dilema do revolucionário

ser capaz de atacar o passado sem destruir o futuro.

liberté, egalité, fraternité

bastaram três palavras.

13.7.05

assalto ao museu

o cúmulo da sofisticação: alguém conseguir roubar, não os quadros de monet, mas apenas os nenúfares dos quadros de monet.

galerina marginata

sabia o nome científico de todos os cogumelos que apanhava no bosque; menos daquele que a matou.

nenúfares

dicionário alternativo

terrorismo - monstro que desperta monstros.

julho

mês vertical, com tudo a prumo (mesmo as coisas oblíquas).

12.7.05

margens

em ljubljana, disseram-me: «não deixes de ver a ponte tripla».
e eu vi a ponte tripla.
as margens do rio, porém, eram só duas.

mapa mundi

mercator ou a arte de espalmar a esfera terrestre.

ponte

nureyev

não era o salto; era o momento antes do salto. o instante em que os músculos lhe erguiam o corpo, à sua revelia.

éden

moral da história: adão e eva foram expulsos; a serpente ficou.

11.7.05

ressaca de uma história de amor

o coração arrancado, preso ao peito com velcro.

explicações de inglês

dentro da palavra harmony está a palavra harm.

espelho

rugas & outras evidências cruéis

o pior defeito de um espelho: a sinceridade.

enxoval

para o seu casamento levou tudo o que era suposto (excepto a paixão).

10.7.05

dois versos de alejandra pizarnik

«alguém mede soluçando
a extensão da aurora.»

(in antologia poética, trad. alberto augusto miranda, ocorreiodosnavios)

uma ilustração científica de john james audubon



















great blue heron (1834)

uma frase de stephen crane

«o hotel palace, em fort romper, estava pintado de um leve azul, uma sombra que existe nas patas de um tipo de garça-real, fazendo com que a ave denuncie a sua posição contra qualquer pano de fundo.»

(in o monstro e outros contos, trad. david furtado, antígona)

9.7.05

uma estrofe de roberto juarroz

«uma palavra é ainda o homem.
duas palavras são já o abismo.
uma palavra pode abrir uma porta.
duas palavras fazem-na desaparecer.»

(in poesia vertical, trad. arnaldo saraiva, campo das letras)

um quadro de amedeo modigliani



















lunia czechowska (1919)

um fragmento de italo calvino

«em cloé, grande cidade, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. ao verem-se imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas. mas ninguém dirige uma saudação a ninguém, os olhares cruzam-se por um segundo e depois afastam-se, procurando novos olhares, não param.
(...)
uma vibração de luxúria move continuamente cloé, a mais casta das cidades. se os homens e mulheres começassem a viver os seus efémeros sonhos, todos os fantasmas se tornariam pessoas com quem se poderia começar uma história de perseguições, de ficções, de malentendidos, de choques, de opressões, e assim acabaria o carrossel das fantasias.»

(in as cidades invisíveis, trad. josé colaço barreiros, teorema)

8.7.05

história universal da infâmia (revista e aumentada)

nova iorque, djerba, bali, mombaça, riade, casablanca, bagdad, istambul, madrid, londres. quem unir todos os pontos verá, desenhado, o rosto infame do terror.

zapping

há quem faça zapping com os canais de televisão. don giovanni fazia zapping com as mulheres.

crepúsculo

projecto de tese académica em filosofia

investigar o que ludwig wittgenstein não disse nem deixou escrito. o seu silêncio.

dezanove horas, trinta e seis minutos

crepúsculo: céu a arder.

7.7.05

chuva

a persistência das bátegas. o cheiro da terra molhada. os rios súbitos no asfalto. a luz reflectida em espelhos involuntários. os remoinhos (com lixo) nas sarjetas. as telhas de um vermelho húmido. o som da água a bater nas vidraças. um arco-íris erguendo-se sobre os prédios.
lembram-se?

dicionário alternativo

haiku - sistema de rega sílaba-a-sílaba.

copo de água

florista

também ela murchava de repente, ao fim do dia, sem ninguém perceber porquê.

caro diário

sortilégio do cinema: o copo de água bebido por nanni moretti é mais do que um copo de água.

6.7.05

sinais

lia o futuro nas entranhas das aves e o passado no álbum de fotografias.

catedral

só as gárgulas conhecem todos os segredos de uma cidade.

álbum de fotografias

anti-gps

é preciso inventar uma máquina que nos faça perder o norte, o rumo, os azimutes, o caminho.

persianas

as pálpebras das casas são feitas de plástico.

5.7.05

baixa-chiado

ele diz que nunca muda, a não ser da linha azul para a linha verde (e vice-versa).

oxímoro humano

à porta do restaurante, um homem muito, muito, muito gordo exibe o crachá que diz: «perca peso agora, pergunte-me como».

linha verde

o que está no meio não interessa

era uma vez e foram felizes para sempre.

index

no estabelecimento prisional entravam quase todas as revistas. quer dizer: todas menos a evasões.

4.7.05

arte da guerra

não confundir o fio da espada com o fio do horizonte.

vida

após cinco noites inteiras a ver o biography channel, decidiu fazer outras coisas. aquilo não era vida.

nuvens

rente ao mar

eram nuvens melancólicas.
nuvens cabisbaixas, rente ao mar.

espírito santo

ao ver uma pomba morta no chão, enquanto em roma elegiam o novo papa, suspeitou que algo de errado acontecera.

3.7.05

um verso de fiama hasse pais brandão

«são as crianças que vibram com as estrelas»

(in cenas vivas, relógio d'água)

um quadro de paul klee



















ancient sound, abstract on black (1925)

uma frase de pedro paixão

«ele precisava tanto de escrever como de apagar o que escrevia.»

(in vida de adulto, cotovia)

2.7.05

um verso de e. e. cummings

«life is an old man carrying flowers on his head.»

(in xix poemas, trad. jorge fazenda lourenço, assírio & alvim)

um quadro de mark rothko



















n.º 2 (blue, red and green), 1953

quatro greguerías de ramón gómez de la serna

«a cabeça é o aquário das ideias.»
«no papel de lixa está o mapa do deserto.»
«o lápis só escreve as sombras das palavras.»
«pão é uma palavra tão breve para que o possamos pedir com urgência.»

(in greguerías - uma selecção, trad. de jorge silva melo, assírio & alvim)

1.7.05

à la carte

foi sincero: o que ele desejava, para usar a expressão da empregada de mesa, nunca constaria do menu.

diz o rapaz dos graffiti

o meu spray vermelho é o bâton das paredes.

troncos

matiné

ia ao cinema só para ver erros de raccord, anacronismos (nos filmes de época), microfones dentro do plano, inconsistências do argumento e também, como quem não quer a coisa, beijos perfeitos.

das árvores

das árvores invejava quase tudo — folhas e troncos e frutos — mas sobretudo as raízes.