4.4.06

greguería (4)

o alfabeto é um esqueleto com 26 ossos.

3.4.06

diz o general ao soldado raso

«quando vires o inimigo olhos nos olhos, não te esqueças: primeiro dispara e depois dispara.»

2.4.06

pesca

atiro uma linha para o ecrã, à espera que o peixe morda.

1.4.06

e então perguntaram-me

com quantas palavras és capaz de fazer isso?

31.3.06

relâmpagos azuis

os relâmpagos azuis caíam sempre na página ao lado.

30.3.06

agora

«agora», disse ela muito baixinho, depois de o ver ao longe, a dobrar uma esquina.

29.3.06

greguería (3)

a tosse é a voz da doença a dizer que chegou.

28.3.06

dança

começamos sempre a medo, antes da vertigem.

27.3.06

prancha

aos 17 anos, ficou imóvel.
lá em baixo, os reflexos na água demasiado azul da piscina, os amigos estendidos na relva, a rapariga a quem não se declarou nunca, o salto adiado, a cobardia agarrando-se definitivamente aos ossos.

26.3.06

labirinto marialva

quando teseu deu de caras com o minotauro, ali para os lados da golegã, espetou-lhe um par de bandarilhas.

25.3.06

ordem

confessava-se ao padre, aos amigos do messenger e ao empregado da cervejaria, não necessariamente por esta ordem.

24.3.06

greguería (2)

os aviões batem as asas quando nós não estamos a olhar.

23.3.06

manhã

ao acordar, b. teve um pressentimento: «hoje vou morrer». só depois, muito depois, lhe explicaram que nem sequer tinha acordado.

22.3.06

pálpebras

não eram bem pálpebras. eram borboletas.

21.3.06

primavera

sobre os versos, o pólen.
neve amarela.

20.3.06

o punhal

esfaqueou um livro de borges, com método, a ver se sangrava.

19.3.06

são josé

às voltas no centro comercial, jesus interroga-se sobre o que há-de oferecer ao pai este ano.

18.3.06

recibo verde

nele tudo era reciclável: até o vencimento (incerto e com retenção na fonte).

17.3.06

conto zen

o mestre olhou em volta e viu os discípulos de caneta em punho (os moleskines abertos numa página em branco). espalhados pela relva, perto uns dos outros, os corpos daqueles homens tão crédulos desenhavam um ideograma obsceno.

16.3.06

greguería (1)

os néons são as tatuagens da noite urbana.

15.3.06

dealer

entrava mudo e saía calado. não dizia nada. nunca. a sua mercadoria era o silêncio.

dívidas

se a empresa cobrador do fraque um dia tiver dívidas, a quem é que telefonam os credores?

no mundo há dois tipos de pessoas

no mundo há dois tipos de pessoas: as que recorrem a frases que começam por "no mundo há dois tipos de pessoas" e as que não recorrem a frases que começam por "no mundo há dois tipos de pessoas".

aviso

o letra minúscula tinha uma ordem secreta, um conjunto de regras precisas (mesmo se invisíveis) para a distribuição diária dos brevíssimos textos e das oblíquas imagens.
agora já não tem.
as frases e as fotos obedecerão doravante apenas às contingências do acaso.

hibernação

depois do longo inverno, com a temperatura a subir e a primavera já aí, este blogue renasce.

16.12.05

paráfrase

is that a book in your pocket or are you just happy to read me?

para cima

não precisamos de mais bloggers a escrever sobre o umbigo. precisamos é de mais bloggers a escrever sobre o ambíguo.

ambíguo

onomástica

tem um problema de pigmentação no rosto e gosta de s&m. os amigos chamam-lhe dom chicote de la mancha.

haver/agir

num país em que se cumprimenta tanto e se decide tão pouco, talvez fosse bom trocar o «bem haja» pelo «bem aja».

15.12.05

sete palmos de terra

só há duas coisas que os vermes não devoram: os ossos e o silêncio.

fc

em criança apontava a lanterna às estrelas, na esperança de ser (para eles) um farol.

farol

aviso para um certo treinador de futebol português que tem feito furor em inglaterra

todos os napoleões conhecem, mais cedo ou mais tarde, o seu waterloo.

frigorífico

a sala era tão fria que ao abrir a porta acendia-se a luz.

7.12.05

erro de paralaxe

sempre que olhava para a fernanda da contabilidade, vinha-lhe à ideia a vénus de botticelli.

made in china

no topo da árvore de natal (feita em plástico verde de péssima qualidade), uma estrela vermelha de cinco pontas.

árvore de natal

h

toda a gente lhe reconhecia um saber enciclopédico, mas só até à letra h.

do contra

na vitrina estava escrito, a tinta branca imitando a neve: «más festas», «infeliz natal» e «mísero ano novo».

1.12.05

pior do que cartas de amor

todos os posts pessoanos são ridículos.

da arca

os estudiosos de fernando pessoa descobriram ontem mais trinta folhas inéditas no espólio do escritor: onze de plátano, sete de eucalipto, cinco de nespereira, quatro de choupo e três de cipreste.

folhas

flagrante delitro

o motor do génio trabalha a álcool.

dashboard

signed in as: fernando_pessoa
blogs: alvarodecampos.blogspot.com; ricardoreis.blogspot.com; albertocaeiro.blogspot.com; bernardosoares.blogspot.com; ortonimo.blogspot.com

30.11.05

dona-de-casa

limpava o pó a tudo; até à solidão.

os prostitutos

juntaram-se meia dúzia e formaram uma empresa: a express male.

pedra

caminho

no meio do caminho, havia uma pedra.
«uma pedra», disseram todos.
«um poema», disse o poeta.

manguito

deprimido com a crise económica e com a baixa auto-estima nacional, o zé povinho já nem sequer tem forças para fazer um manguito.

um poema inédito de joaquim cardoso dias [enviado por e-mail]

esta tarde


esta tarde
esmagado pela luz do mundo
contemplei a cidade
da varanda na alegria dos outros

e nenhum sorriso
foi preciso aos primeiros detalhes fortuitos
desta paisagem entre prédios e fotografias

e de muito longe o interior da floresta
é o rito de iniciação sexual
entre o medo e a raiva de não te ter amado

um auto-retrato com luzes estranhas no rosto de jorge molder



sem título (2001)

uma frase de ernesto sampaio

«sem as palavras não existiria nada; só elas dão sentido completo à essência das coisas.»

(in ideias lebres, fenda)

um landay recolhido por sayd bahodine majrouh

«ó meu amor, se nos meus braços tremes tanto
que farás quando do choque das espadas saltarem mil faíscas?»

(in a voz secreta das mulheres afegãs - o suicídio e o canto, trad. ana hatherly, cavalo de ferro)

um fotograma de cindy sherman



untitled film still #66 (1980)

uma micro-história de tonino guerra

«abandonadas pelos seus amantes, duas mulheres almoçam sandes, num banco de jardim público. a solidão era tão forte que pensam viver juntas. a que primeiro oferecera a sua casa, ao preparar-se para dormir, sentiu a outra tão atraente que desejou fazê-la adormecer no lado do leito que, habitualmente, ocupava, tomando para si o lado do homem que amava. e ao perceber que olhava para a sua amiga como ele a teria olhado, sofreu com os ciúmes.»

(in histórias para uma noite de calmaria, trad. mário rui de oliveira, assírio & alvim)

25.11.05

fim

ele abriu a porta da rua, olhou para trás e apagou a luz.

ruínas

nas ruínas podemos ver o que foi.
ou então a passagem para o que vai ser.

passagem

mais uma semana (de interregno)

às vezes é preciso tempo para carpir as mágoas.

how to kill a blog

não pensar demasiado.
não temer as consequências.
não hesitar no último momento.
partir para outra(s).

17.11.05

champollion forense

os seus hieróglifos: as marcas dos pneus, deixadas na terra húmida pelos assassinos.

a vingança do meteorologista

quando os furacões atingiam o grau cinco, baptizava-os com os nomes das suas ex-mulheres.

marcas

a morte descalça

inexplicavelmente, confundia tanatos com chanatos.

eratóstenes

gloriosa sabedoria: entender que o tamanho do mundo se mede pelo tamanho das suas sombras.

16.11.05

business as unusual

inspirado pelo êxito dos jornais gratuitos, resolveu criar um blogue pago.

segredo

atrás do vidro fosco, literatura nítida.

vidro fosco

a realidade de pernas para o ar (2)

«uma casa; 58 câmaras; três livros de filosofia ocidental (kierkegaard, wittgenstein e derrida); 12 professores universitários assistentes. só um deles conseguirá terminar a tese de doutoramento. saiba qual em exegese, o novo reality show da tvi.»

engano

comprou um livro de auto-ajuda mas, ao fim de poucas páginas, sentiu-se defraudado: ali não havia diagramas de motores nem dicas para resolver problemas de mecânica.

15.11.05

dicionário alternativo

prémio nobel - o equivalente literário da killing joke.

discurso directo

dita assim, a palavra falésia era um precipício.

falésia

sinais de fumo

em cantos opostos do escritório — enorme e desumano open space — eles partilhavam uma linguagem secreta, uma espécie de código morse que pairava sobre as cabeças dos outros, deixando na roupa um cheiro vagamente erótico (mistura de ansiedade e nicotina).

personal

quando decidiu que já ia sendo tempo de escrever um livro (como toda a gente à sua volta), a modelo famosa trocou o personal trainer pelo personal writer.